I Seminário da Rede de Sementes do Xingu marca amadurecimento dos trabalhos da instituição

30/06/2023 | Lia Rezende Domingues - Da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX)
Mato Grosso
Nova Xavantina
Rede de Sementes do Xingu
Restauração Florestal
Seminário
Trocas de saberes
Com uma "muvuca de gente" reunida, evento consolida avanço da agenda de restauração florestal no Mato Grosso e no Brasil

Nos dias 16 e 17 de junho, Nova Xavantina foi palco de um evento memorável: o I Seminário da Rede de Sementes do Xingu (ARSX), que reuniu uma “muvuca de gente” para discutir os desafios e as perspectivas da restauração florestal no Mato Grosso e no Brasil. 

Ao todo, 145 pessoas estiveram presentes, incluindo indígenas, agricultores familiares, fazendeiros, técnicos, professores, representantes de organizações do terceiro setor e agentes políticos de pelo menos 18 municípios mato grossenses, além da Terra Indígena do Xingu, da Terra Indígena Marãiwatsédé e de estados como São Paulo, Goiás, Rondônia e Distrito Federal.

Ao longo de dois dias, os participantes puderam não só assimilar a complexidade e a grandeza da cadeia da restauração florestal com muvuca de sementes, como também vislumbrar a diversidade de agentes e de possibilidades envolvidos nesse processo. 

Uma programação da semente à floresta 

A programação do I Seminário da ARSX incluiu momentos teóricos, práticos e culturais, começando pela abertura do evento com a presença da Diretoria da ARSX e de João Ailton Barbosa – Secretário de Administração, Meio Ambiente e Infraestrutura – e Áurio Pedreira, secretário da Agricultura Familiar de Nova Xavantina, que celebrou a transferência da sede da ARSX para o município e sinalizou seu apoio às ações do grupo. 

Fotos: Nativa Filmes

A seguir, os participantes tiveram a chance de escutar mais sobre a história da RSX, suas realizações e metas futuras, em uma exposição feita pela diretora executiva da associação, Bruna Ferreira. A manhã contou, ainda, com uma plenária em formato de mesa redonda, reunindo sete representantes de diferentes etapas da cadeia de restauração florestal. 

Foto: Nativa Filmes

As apresentações da mesa contemplaram aspectos estratégicos do restauro, incluindo a coleta de sementes em territórios urbanos e indígenas; a análise da qualidade das sementes em laboratório; as diferentes etapas da restauração; o case de sucesso da Fazenda Schneider; os custos financeiros da restauração e o trabalho de combate a incêndios no Parque Indígena do Xingu.

Fotos: Nativa Filmes

O debate sobre essas temáticas pode ser aprofundado durante a tarde, dedicada a Grupos de Trabalho. Em roda, os participantes discutiram pautas como armazenamento de sementes; espaços de formação para equipes coletoras; plantação de matrizes próximas às casas de quem coleta; preço, demanda e qualidade das sementes; fortalecimento de centros de pesquisa, como a UNEMAT; criação de parcerias, sobretudo políticas; melhores épocas e técnicas de plantio e manejo; cuidados com o fogo e com o capim, além de questões econômicas, políticas e socioculturais do restauro. 

Fotos: Nativa Filmes

Por fim, o segundo e último dia do evento permitiu que os participantes testemunhassem a realidade da restauração ao visitar duas áreas: uma área verde na sede do município de Nova Xavantina, que ainda receberá a muvuca de sementes, e uma área de meio hectare no Projeto de Assentamento (PA) Pé da Serra, onde Mariozan e Angela Maria, coletores da RSX, semearam 78kg de sementes em dezembro de 2021. 

Fotos: Nativa Filmes

“Abordamos aspectos da cadeia da restauração florestal e os benefícios da muvuca para as propriedades, para a qualidade da água e para a captura de carbono. Como nem todos os participantes conheciam nosso trabalho, esta foi uma ótima oportunidade para avançar na agenda da restauração ambiental no Mato Grosso e no Brasil”, celebra João Carlos Pereira, técnico da RSX. 

Fotos: Nativa Filmes

Uma homenagem a Heber Queiroz 

A restauração florestal feita na propriedade de Mariozan, no PA Pé da Serra, é uma homenagem ao ex-coordenador regional do Instituto Socioambiental (ISA), Heber Queiroz, falecido em 2021, em razão da pandemia da Covid 19. Adubado pela dedicação e legado de Heber, ainda que simbolicamente, essa área de muvuca tem se tornado um dos melhores exemplos da técnica de semeadura direta na região. 

“Logo no primeiro monitoramento, percebemos o retorno de um capim nativo que tem contribuído na recuperação do córrego da propriedade. Bastou retirar a camada de braquiária para conseguirmos resgatar essa espécie. Mariozan é muito cuidadoso e isso contribui para o processo”, explica Aline Ferragutti, técnica do ISA responsável pela implantação do projeto.  

  

A visita também inspirou outros agentes que têm feito restauração florestal em suas propriedades, como é o caso da coletora e elo Eliane Righi. “Nossos plantios têm o mesmo tempo e estão parecidos. Tem caju e mamoninha florindo, lobeira produzindo e feijão andu sendo colhido. Adoro saber que em breve vamos coletar sementes mais perto de casa”, comenta. 

A cadeia da restauração florestal por muvuca: 

geração de renda que transforma vidas e cuida do meio ambiente 

A muvuca de sementes é uma técnica antiga de restauração, reconhecida por suas vantagens a nível ecológico, econômico e social se comparada com outras técnicas de restauro. 

Ecologicamente, o plantio por muvuca apresenta maior potencial de germinação e menor taxa de mortalidade das plantas, que crescem já adaptadas ao solo e, com isso, tornam-se mais resilientes. A nível econômico, o plantio também é otimizado, uma vez que os custos de transporte, de implantação e de manejo são mais baixos. 

Mas é em termos sociais que a muvuca revela sua maior preciosidade: por trás dela, há toda uma cadeia de comunidades e territórios que se beneficiam com a coleta de sementes, uma iniciativa que gera renda, promove saúde e sensibiliza comunidades. 

“Coletar semente é um serviço que me distrai e me ensina outros jeitos de cuidar da Natureza. Eu não tinha isso de preservar uma área e hoje eu não quero cortar uma árvore. Quando eu vou pro mato coletar, demoro a voltar pra casa de tanto que eu gosto”, conta Dalvina da Conceição, coletora do PA Manah, em Canabrava.

Dalvina coleta sementes na muvuca que encerrou o evento. Fotos: Nativa Filmes

Depoimentos como o de Dalvina demonstram a força de transformação que a muvuca semeia. Isso acontece porque a semente traz conexão tanto para quem planta quanto para quem coleta. Quem coleta sementes caminha atento às árvores, às flores e aos animais. E isso gera saúde, tanto física quanto emocional. 

 

A coleta de sementes é um exercício de Educação Ambiental, capaz de resgatar culturas de proteção e cuidado dos territórios, restabelecendo práticas como o canto e a observação. “A semente não veio só pra trazer dinheiro. Ela traz histórias e resgata conhecimentos esquecidos. Quando coletores e coletoras se juntam, eles se organizam, se pintam e preparam música”, conta Tariaiup Kayabi, liderança indígena da Aldeia Samaúma e membro da diretoria da ARSX.

Redes em rede e mãos em ação  

O I Seminário da Rede de Sementes do Xingu deixou evidente: a RSX é uma muvuca de gente trabalhando com uma muvuca de sementes! Em tons de celebração, o encontro foi encerrado com um convite aos participantes para misturarem mais de 70 tipos de sementes depositados sobre uma lona azul no centro do Salão da Eubiose, espaço que sediou o evento. 

“Foi emocionante. A troca de experiências, a interação entre pessoas de etnias e vivências diferentes e a resistência de ir contra um sistema de monoculturas para preservar o meio ambiente ensina muito a nós todos”, declara Renata Del Carratore, professora da UNEMAT, comovida com a mistura das sementes.

Uma das fortalezas das sementes é justamente a força de sensibilização que elas carregam. Difícil não se emocionar ao manusear uma floresta em potencial, armazenada em sementes de diferentes cores, tamanhos e formas.

Foto: Nativa Filmes

“O que é uma muvuca, senão uma muvuca de gente? Tem semente alta, magra, gordinha. E todas com um objetivo: restaurar a floresta. Nós também somos muvuca lutando para recuperar nossas florestas e nascentes. Somos indígenas, agricultores familiares, proprietários de terra e técnicos dedicados a isso”, diz Milene Alves, coletora de sementes e técnica do Redário. 

Outra beleza do encontro foi constatar que a RSX não está só. Como ela, outras organizações espalhadas pelo Brasil promovem a restauração florestal por muvuca de sementes. Bruno do Mato, membro da Rede de Sementes Portal da Amazônia, felicita a possibilidade de aprendizado e aproximação. 

“Estamos unidos à RSX pelo Redário e, embora nossa atuação seja em territórios diferentes, a RSX é um exemplo e uma inspiração. A RSX está um passo a frente de onde estamos, então ganhamos muito com experiências como essa”, conclui.

Foto: Nativa Filmes

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