Em nove anos, Rede de Sementes do Xingu já remunerou seus coletores com quase dois milhões

01/04/2016
Balanços da Rede

Em 2007, primeiro ano de atividades da Rede de Sementes do Xingu, que nascia dentro da Campanha Y Ikatu Xingu, a comercialização de sementes florestais rendeu nove mil reais. Esse foi o começo de um negócio que já movimentou quase dois milhões de reais em nove anos de trabalhos, abrindo oportunidades e renda para centenas de famílias na região Xingu Araguaia. Além disso, as sementes possibilitaram o reflorestamento de mais de 3,5 mil hectares de florestas.

No ano passado, foram comercializadas 17 toneladas de sementes florestais de 131 espécies por 421 coletores, gerando uma renda de 311 mil reais. Entre 2007 e 2015, a soma dos recursos gerados alcança exatamente um milhão e 999 mil reais, vindos da comercialização de 153,5 toneladas de mais de 250 espécies florestais nativas da região Xingu Araguaia.

Esses dados mostram o crescimento da Rede e a valorização do trabalho do coletor. Conforme Bruna Souza, coordenadora e integrante da diretoria da Rede, a coleta tem se tornado um complemento na renda para as famílias, principalmente nos assentamentos. “A semente, na verdade, complementa a renda da família, principalmente nos assentamentos, em que muitos trabalham com farinha, leite, gado, hortaliças e frango. E é uma renda que vem da floresta, talvez uma das únicas rendas que vem da floresta em pé”, falou Bruna. A coleta de sementes ocorre geralmente durante cinco meses no período de julho e novembro.

Para o coordenador do Programa Xingu do ISA (Instituto Socioambiental) e um dos idealizadores da Rede, Rodrigo Junqueira, a renda possibilita que os coletores desenvolvam o trabalho com dignidade. “A semente, além de ser um elemento simbólico muito expressivo, ela faz parte da vida dessas famílias, ela pode sim contribuir e ajudar com a geração de renda dessas famílias, que ao longo desse tempo já foi quase dois milhões de reais transferidos para que elas pudessem fazer esse serviço com dignidade e ajudar a recuperar as nascentes e as matas das cabeceiras do Xingu”.

A coleta de sementes incentivou ainda outras atividades, como a venda da polpa das frutas retiradas no beneficiamento das sementes, que pode ser utilizada para sucos e sorvetes. Isso gera mais renda e também é um complemento alimentar natural para as famílias dos coletores.

Como as áreas de coleta às vezes estão a centenas de quilômetros de distância da moradia das famílias, muitos estão plantando árvores em suas propriedades para que futuramente a coleta aconteça no próprio lote, diminuindo custos. Enquanto muitos assentados na região derrubaram toda a mata e arrendaram suas terras para o cultivo da soja e foram embora para a cidade, os coletores de sementes caminham na direção oposta, reflorestando sua terra.

A floresta em pé gera inúmeros resultados positivos, como a regulação do clima, evita o assoreamento dos rios, recupera nascentes e protege a fauna e a flora. Para o seu Acrísio Luiz Reis, coletor de 64 anos do município de Canabrava do Norte, o clima está desregulado pela ação do próprio homem, por isso a importância em reflorestar. “Se não fossem as árvores, o que seria de nós? Cada ano está mais descontrolado o clima, quando chove, chove demais. Porque isso está acontecendo? Porque o próprio homem está destruindo sua própria vida, está destruindo a natureza e a natureza é vida”.

O principal objetivo da coleta de sementes florestais sempre foi o plantio de florestas. Mas recentemente novos mercados tem se abrido gerando novas oportunidades. Sementes também estão sendo utilizadas para a produção de artesanatos, para a indústria de cosméticos e a indústria farmacêutica, que utilizam, porém, as sementes descartadas para o plantio. Isso é uma amostra de que o mercado está se diversificando.

Se até aqui os números mostram que a iniciativa deu certo em todos os aspectos, as perspectivas para o futuro também são muito otimistas. Com os planos dos governos estadual e federal de recuperação de áreas degradadas, surge uma grande demanda por sementes, o que fortalece o mercado e consolida a importância da Rede de Sementes do Xingu. “A perspectiva é que a demanda para recuperar áreas aumente e, além disso, estão se abrindo novos mercados para além da floresta”, complementou Bruna.

(Por Rafael Govari – ISA)

Quer compartilhar?