Técnicos do ICMBio conhecem iniciativa que os inspirou na restauração da Chapada dos Veadeiros

O trabalho de restauração florestal de áreas degradadas realizado na região Xingu Araguaia e a Associação Rede de Sementes do Xingu foram conhecidos in loco por técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão federal responsável pela conservação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Alexandre Ponesso Sampaio e Claudomiro de Almeida Cortês estiveram na primeira semana de fevereiro visitando Canarana e região e conhecendo a iniciativa.

Alexandre contou que desde o ano de 2009 o ICMBio realiza trabalhos de restauração no Parque tendo como inspiração a técnica de plantio direto de florestas desenvolvido durante a Campanha Y Ikatu Xingu na região Xingu Araguaia. “A gente começou a replicar na nossa região adaptando a nossa realidade, mas até então nunca tivemos a oportunidade de vir até aqui para conhecer o que inspirou o nosso trabalho”, disse. Eles conheceram a técnica através das diversas publicações realizadas pelo ISA (Instituto Socioambiental).

Para Alexandre, a técnica de semeadura direta é inovadora, porque reduz custos e permite plantar uma grande densidade. “Para fazer com mudas a mesma quantidade que a gente faz com o plantio direto, seria muitíssimo caro, mas essa técnica permite você fazer uma restauração ecológica de fato, que não é plantar um bosque, que é o que você consegue utilizando mudas. Nós estamos no cerrado e para recuperar precisamos de gramíneas nativas, arbustos nativos e árvores nativas e isso conseguimos com o plantio direto”, explicou.

Desde o ano de 2009, já foram recuperados 48 hectares de cerrado com a técnica do plantio direto dentro do Parque. Ainda restam 200 hectares para serem restaurados dentro do Parque da Chapada dos Veadeiros, que possui 64 mil hectares de área.

A maior parte das sementes utilizadas no reflorestamento são coletadas dentro do próprio Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. O responsável é Claudomiro, que coordena uma equipe de aproximadamente 15 pessoas, alguns em tempo integral e outros trabalhando em horas vagas. A demanda por sementes é grande e para supri-la é necessário organização. Claudomiro falou que levará novidades da visita.  “É bem interessante como a Rede se organiza, a gente vê que os coletores estão felizes, isso pra mim foi fantástico”.

Alexandre falou que eles levarão novas possibilidades para aprimorar o método do plantio direto de florestas. “Muita coisa a gente já vinha fazendo, mas não conhecia o detalhe exato, que só vindo no local possibilita conhecer. Conversamos com técnicos, vimos vídeos bem detalhados e resultados no campo, então a gente tem um conhecimento muito melhor da técnica hoje e a gente vai levar para a nossa experiência e, com certeza, melhorar. Foi uma grande experiência ter vindo aqui e esperamos que esse tipo de iniciativa se espalhe para o Brasil inteiro”.

O Ministério do Meio Ambiente estima que hoje existem mais de 15 milhões de hectares para serem restaurados no Brasil, informou Alexandre. Se não tiver sementes florestais e técnicas eficientes de restauração, dificilmente essa área um dia será alcançada. “Tem que ter sementes, mas também uma forma eficiente de coletar, transportar, armazenar e plantar. No Brasil há muitas iniciativas de restauração, mas se você ver o resultado disso para a natureza, é muito pequeno, é muito menor do que o recurso que foi investido. Se com esse mesmo recurso a gente utilizasse essa técnica, o recurso teria sido muito melhor utilizado”, concluiu.

Conforme a integrante da diretoria da Associação Rede de Sementes do Xingu, Bruna Dayanna F. de Souza, é uma honra ter o trabalho de restauração e de coleta de sementes reconhecido. “Esse é, no fundo, o objetivo, fazer com que iniciativas se multipliquem pelo Brasil. Estamos mostrando que é possível reflorestar”, disse.

O método de plantio direto utiliza maquinário agrícola, o mesmo que se planta soja e milho, para plantar florestas. As sementes são misturadas no que é chamado de muvuca e depois colocadas na plantadeira ou no vincón (a lanço). Além de ser bem mais barata do que mudas, a técnica é mais eficiente, demonstrando melhores resultados na região do cerrado, que enfrenta todo o ano quase seis meses de seca.

Essa técnica foi desenvolvida durante a Campanha Y Ikatu Xingu – Salve a Água Boa do Xingu, que iniciou em 2004 na região das cabeceiras do rio Xingu, quando se viu a necessidade de recuperar as nascentes reflorestando as APPs (Áreas de Preservação Permanente). A Rede de Sementes do Xingu nasceu em 2007 da demanda que o reflorestamento exigiu. Até o momento já foram reflorestados mais de 03 mil hectares na região Xingu Araguaia e hoje a Rede possui mais de 420 coletores de sementes.

(Por Rafael Govari – ISA)

DSC_0002

Alexandre, Claudomiro e Bruna

Deixe um comentário