Surto de Covid-19 atinge aldeias indígenas Ikpeng, onde vivem as coletoras Yarang, da Rede de Sementes do Xingu

Cerca de 90% da população foi infectada; maioria apresentou sintomas leves, e pessoas com sintomas moderados a graves são internadas na Unidade de Atenção Primária Indígena (UAPI), equipada especialmente para atender os casos de coronavírus

Recuperado da Covid-19, Komoru Ikpeng, servidor da Funai de 54 anos, exibe cartaz “Eu venci a Covid”, ao lado da família, logo após receber alta da UAPI, na tarde desta segunda-feira (11) (foto: Gilmar Wagner/Dsei Xingu)

Um surto de Covid-19 atingiu todas as sete aldeias da etnia Ikpeng, no Território Indígena do Xingu, contaminando cerca de 90% da população, hoje estimada em aproximadamente 730 pessoas. Foram registrados quatro casos entre moderados e graves, e não houve óbito. O surto chegou às coletoras Yarang, da Associação Rede de Sementes do Xingu: cerca de 60 mulheres do grupo, que tem 75 integrantes, foram infectadas.

De acordo com Gilmar Wagner, enfermeiro especialista em saúde indígena, que trabalha há oito anos no Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Xingu, o surto começou dias depois do segundo turno das eleições de 2020, realizado no dia 29 de novembro. Em um contexto geral, a partir do segundo turno em todo o Brasil, houve um afrouxamento ainda maior das regras de controle sanitário e de circulação de pessoas por parte dos governos. Sem essas regras e orientações básicas, a população brasileira deixou de obedecer aos protocolos sanitários internacionais, acelerando ainda mais a disseminação do vírus no território nacional. Poucos dias após o segundo turno, surgiram novos casos de Covid-19 nas aldeias Ikpeng. As aldeias voltaram a fazer lockdown imediatamente, mas o vírus se espalhou rapidamente pelas casas.

Nas aldeias do povo Ikpeng, a maior parte das pessoas infectadas apresentou sintomas leves da doença. Um dos contaminados foi Oreme Ikpeng, elo do Movimento Yarang das Mulheres Coletoras de Sementes. “Aqui em casa todo mundo pegou Covid-19, inclusive eu. A gente sentiu dores no corpo, cansaço, coriza, perda de paladar e de olfato, mas estamos nos recuperando”, diz. Ele informa que Koré Ikpeng, a líder do movimento Yarang da aldeia Arayó, também ficou doente, mas assim como a maioria, apresentou sintomas leves e está em recuperação.

Logo no início do lockdown, em dezembro, os anciões retiraram-se da vida em comunidade e seguem isolados nos 14 acampamentos na mata, longe das aldeias, construídos por conta da pandemia. E os pacientes indígenas com Covid-19, cujos sintomas evoluíram para moderados a graves, estão sendo internados na Unidade de Atenção Primária Indígena (UAPI), equipada com concentradores de oxigênio, cilindro, medicações e com a presença constante de um profissional de saúde.

No último dia 11, duas pessoas que estavam internadas receberam alta. Logo em seguida, duas outras pessoas deram entrada na UAPI, que comporta até quatro pacientes. A manutenção da UAPI é feita pelo Dsei Xingu, com apoio dos parceiros Projeto Xingu, Instituto Socioambiental, e Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX), que fornecem materiais, insumos, alimentação e profissionais para atuar na região.

Além dos parceiros institucionais, os povos indígenas que habitam o Território Indígena do Xingu vêm recebendo apoio através de doações de pessoas físicas. A ATIX-Mulher está fazendo uma campanha de doação emergencial para enviar insumos e alimentos às aldeias. Clique aqui para fazer a sua doação.

“Por uma questão cultural nossa, não podemos comer peixe. Além disso, não estamos saindo de casa para buscar comida. Por isso, o apoio dos parceiros tem sido importante para garantir a chegada de alimentos e remédios nas aldeias”, diz Oreme, que habita a aldeia mais populosa de todas, a Moygu.

Por Ludmilla Balduino
Comunicação da Associação Rede de Sementes do Xingu: comunicacao@sementesdoxingu.org.br

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