Semeadura direta no centro das discussões mundiais sobre restauração

Danilo Ignacio Urzedo, pesquisador, e Eduardo Malta, técnico em restauração florestal do ISA, ambos colaboradores da Rede de Sementes do Xingu, trazem suas percepções sobre o evento de um dos maiores programas de recuperação florestal

Por Danilo Urzedo e Eduardo Malta

A 8ª Conferência Mundial de Restauração Ecológica, que acontece entre 24 e 28 de setembro na África do Sul abordou de  forma muito excelente a questão das políticas internacionais, entre elas a meta de  350 milhões de hectares que precisam ser restaurados até 2030 dentro do Acordo de Paris para mitigar e adaptar as mudanças climáticas e recuperar a biodiversidade.

Participantes do Simpósio de Sementes para a Restauração Global, na 8ª Conferência Mundial de Restauração Ecológica.

Foi possível conhecer durante o evento as metas e como os diferentes países estão articulando a restauração em larga escala desenvolvendo ações práticas. Aconteceram debates sobre governança, políticas públicas, articulações do setor jurídico em relação às legislações e regulamentações, como essas estão sendo reformuladas nas diferentes partes do mundo e como isso se transfere para ações práticas.

Visualizamos o desenvolvimento de técnicas não só no campo científico mas que estão sendo aplicadas no cotidiano em diferentes escalas para testar essas tecnologias e verificar as possibilidades de trazer inovação. Observamos também diferentes métodos de restauração e diferentes formas de intervenção e, principalmente, o uso da semeadura direta como uma técnica muito inovadora em diferentes regiões do mundo para recuperação de diversos ecossistemas com resultados muito promissores e com uso de menos insumos. 

Simpósio de Sementes para a Restauração Global – Desenvolvendo a oferta de sementes e estratégias de semeadura direta no Brasil

Além disso, vimos o grande anúncio da Década da Restauração da ONU com grande expectativa de que esse tema vai ganhar força política e visibilidade. A grande questão é como que conseguiremos comunicar a década da restauração para a sociedade. Como que as soluções baseadas na natureza e, principalmente, a recuperação de áreas degradadas podem se tornar temas mais acessíveis para as pessoas, para que entendam a importância disso e participem. 

Há também a necessidade da incorporação dos mercados dentro das estratégias, ou seja, como a restauração pode promover o pagamento de serviços ambientais, fornecer produtos e serviços para a sociedade, a importância do uso econômico das áreas em restauração a partir da produção de não-madeireiros, do manejo florestal com a participação das comunidades para a geração e manutenção dos meios de vida local.

Mas além disso a estrutura de mercados locais e regionais e o desenvolvimento de modelos de pagamentos de serviços ambientais foram muito debatidas como a questão da água e do carbono. Então ficou muito claro que temos que nos aproximar cada vez mais essas soluções baseadas na natureza, da articulação econômica dessas áreas para encontrar uma viabilidade de restauração em larga escala. 

Simpósio de Sementes para a Restauração Global – Desenvolvendo a oferta de sementes e estratégias de semeadura direta no Brasil

Conseguimos verificar enfim que a restauração em larga escala requer uma articulação política, a formação de legislações cada vez mais alinhadas com as realidades, o desenvolvimento de técnicas e tecnologias associadas com conhecimentos locais, com a participação de comunidades para o fortalecimento cada vez mais de mercados para construção de uma década  que fomente a restauração, que consiga atingir a meta em 2030, meta tão importante para o equilíbrio climático e a biodiversidade do nosso planeta. 

No sentido dessa meta vimos cinco sessões focadas em sementes. Percebe-se que cada vez mais visibilidade para o setor de sementes nativas de diferentes vegetações e ecossistemas do mundo. Tivemos uma sessão especial para sementes do Brasil que a aborda a produção e coleta de sementes, as redes de sementes brasileiras, a tecnologia de uso de sementes nativas e o uso da semeadura direta tanto para  floresta como para savanas brasileiras. 

Rafael Chaves, da SOBRE ( Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica), na 8ª Conferência Mundial de Restauração Ecológica na Cidade do Cabo, África do Sul. Foto: Danilo Urzedo

Então tivemos essa visibilidade muito grande no sentido tecnológico, no uso e produção de sementes porque sabemos que só vai ser  possível atingir essa meta se trabalharmos com todos os elos da cadeia que é uma parte essencial desse processo. 

“É impressionante a quantidade de países que estão fazendo semeadura direta há décadas, que tem pesquisas, dados e já implantaram vários hectares, enquanto no Brasil o tema é pouco comentado, acompanhado. Várias pesquisadores pesquisam tecnologias para germinação, armazenamento,peletização das sementes e épocas de plantios, diferentes regimes de chuvas, pensando sobre mudanças climáticas, controle de invasoras, drones fazendo semeadura, coisas que são muito legais e que já estão sendo feitas e que são super avançadas”, comentou Eduardo Malta técnico em restauração florestal do Instituto Socioambiental (ISA) e colaborador da Rede de Sementes do Xingu. 

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