Rede de Sementes do Xingu inicia série de oficinas sobre Muvuca e restauração com povo indígena Zoró

Objetivo é propor, junto aos indígenas, autonomia nos processos de organização, coleta e restauração do território, no noroeste do Mato Grosso

A Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) deu início, em parceria com a Iniciativa Comunidades e Governança Territorial da Forest Trends (ICGT-FT), a uma série de oficinas de formação sobre Muvuca e restauração ecológica junto ao povo indígena Zoró. O treinamento, que teve início no último 30 de novembro, conta também com a parceria da Ecoporé e visa dar autonomia aos Zoró para que eles planejem a restauração de suas áreas e iniciem, caso sintam a necessidade, um sistema autônomo de coleta de sementes para restauração do próprio território.

A oficina contou com cerca de 20 participantes – dentre eles, representantes do povo indígena Zoró, interessados em restaurar 40 hectares da Terra Indígena que fica no Mato Grosso (foto: reprodução)

A parceria faz parte de um projeto da ICGT-FT que tem como objetivo plantar um milhão de árvores utilizando diferentes métodos de restauração, como agroflorestas, plantio de mudas e Muvuca. Serão restaurados 40 hectares de áreas degradadas da Terra Indígena Zoró utilizando o método da semeadura direta (Muvuca). O projeto tem um formato inédito para o modo de trabalho da ARSX, pois contemplará áreas que estão além do território de atuação da Rede, e também pelo formato das oficinas, que – devido à pandemia de Covid-19 – serão realizadas, em grande parte, de forma remota.

Com cerca de 20 participantes, a primeira oficina online dividiu-se basicamente em duas partes. Na primeira, Claudia Araújo, gestora de produção e qualidade da ARSX; Dannyel Sá, facilitador do ISA; e João Carlos Mendes Pereira, facilitador da ARSX, apresentaram as experiências amadurecidas de diferentes grupos da Rede de Sementes do Xingu na organização e na coleta das sementes.

Foram abordados temas relacionados aos cuidados com a saúde dos coletores (especialmente na pandemia de coronavírus), e os cuidados com a manutenção do ambiente de coleta. Afinal, é preciso se atentar para que nem todas as sementes sejam coletadas, para que as futuras gerações daquela espécie também se desenvolvam no local.

Ainda na primeira parte, os facilitadores mostraram maneiras de criar mapas mentais da localização das árvores para coletar as sementes, e falaram sobre a importância de fazer um calendário do ciclo reprodutivo das árvores.

Durante a oficina com o povo indígena Zoró, foram mostrados exemplos de mapas para localizar áreas de colheita de sementes e de restauração no território (foto: reprodução)

A segunda parte foi dedicada à restauração. Falou-se sobre a importância do planejamento em grupo, e os técnicos mostraram, usando como exemplos experiências anteriores da própria Rede de Sementes do Xingu, como criar grupos de trabalho para construir um diagnóstico socioambiental da área que será restaurada coletivamente.

Os técnicos ainda apresentaram um mapa com possíveis áreas interessantes para a restauração, localizadas próximas às aldeias do Território Indígena Zoró.

O passo seguinte será dado pelos indígenas, que devem começar a construir um diagnóstico para o planejamento e definir que ações de coleta e restauro conseguirão assumir nos próximos meses. A segunda oficina está agendada para o dia 14 de dezembro. O plantio utilizando técnicas de Muvuca e semeadura direta está programado para o fim de 2021.

“Este momento de formação, com a interação direta entre a ARSX e o povo Zoró, marca o início de um processo muito promissor, que vem em resposta ao compromisso do Povo Zoró de conseguir restaurar a área degradada antes da demarcação de seu território. Este compromisso é o reflexo de um sonho coletivo, de “trazerem a vida de volta para perto de suas aldeias”. Para nós é uma grande satisfação podermos promover este primeiro passo junto com a ARSX e a Ecoporé.” destaca Marcio Halla, coordenador da ICGT da Forest Trends.

A Terra Indígena Zoró, situada no noroeste do Mato Grosso, é habitada pelo povo Zoró há séculos. Passou a ser invadida com mais frequência no início do século 20 por seringais e empresas de garimpo. O início da construção da BR-364, no início dos anos 1960, alterou a paisagem no sul do Território, facilitando invasões e aumentando as disputas pelas terras indígenas entre colonizadoras, agropecuárias e posseiros.

Hoje, o povo Zoró – que é especialista em coleta de castanha-do-pará -, está articulado através da Associação do Povo Indígena Zoró Pangyjej (Apiz), que representa sua população com cerca de 700 pessoas.

A oficina foi realizada em português, com tradução para a língua Mondé para os indígenas presentes, feita por Assis Gavião e Roberto Zoró, da diretoria da Apiz.

Uma resposta para "Rede de Sementes do Xingu inicia série de oficinas sobre Muvuca e restauração com povo indígena Zoró"

Excelente oficina e participação, principalmente do Povo Zoró. Parabéns!

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