Rede de Sementes do Xingu decreta luto de três dias pela morte de Heber Queiroz

Bruna Ferreira, Breno e Heber Queiroz brincam com a muvuca de sementes em 2017, em Canarana (MT)

Nesta manhã de segunda-feira (10), o Brasil perdeu mais um grande lutador pela restauração das matas brasileiras para a covid-19. Heber Queiroz Alves, coordenador do Instituto Socioambiental (ISA) em Canarana (MT), tinha 36 anos. Ao longo de sua carreira no ISA, ajudou a plantar milhões de árvores com sementes nativas da Rede de Sementes do Xingu.

Heber fazia a ponte entre os 568 coletores de sementes nativas e os proprietários rurais que promovem a restauração ecológica em suas fazendas. Essa parceria rendeu florestas em pé: até 2020, o ISA e a Rede já semearam 6.800 hectares de árvores nativas da Amazônia e Cerrado.

A parceria também rendeu casamento e família: Heber era casado com Bruna Ferreira, diretora da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX). Dessa comunhão nasceram outras duas sementes: Breno, que hoje tem 6 anos, e Lívia, de 2 anos.

Em nota publicada pelo ISA, Heber é lembrado como um exemplo de companheiro de trabalho:

“Quem trabalhou com Heber sabe do privilégio que teve. Sua voz doce e calma, sempre perseverante e responsável, ofertava respeito e amor pelos parceiros de jornada. Falava generoso com todo mundo. Produtor rural, indígena, assentado, jornalista, colega, pesquisador, não importa. Trazia força, trazia paz.”

Outros óbitos por covid-19 no Xingu e região

O mais grave problema de saúde pública da história da humanidade, a pandemia de covid-19 vem sendo tratada pelo governo federal de forma criminosa e pelos governos locais de forma irresponsável. Até esta terça (11), o número de brasileiros mortos pela doença — que já tem vacina e pode ser controlada através de lockdown e auxílio emergencial — chegou a 423 mil e segue aumentando, sem expectativa de estancar.

Em junho de 2020, uma das coletoras anciãs, Mônica Rênhinhai’õ, do grupo Pi’õ Romnhá Ma’ubu’mrõiwa (Mulheres Coletoras de Sementes, na língua akwén, do povo Xavante), morreu depois de quase dois meses lutando contra o coronavírus em um pronto-socorro de Barra do Garças (MT).

Entre os diversos povos indígenas do alto e baixo Xingu, a morte de líderes importantes desestabilizou a organização social de todos os povos habitantes do Território Indígena do Xingu (TIX), especialmente os Wauja e Kawaiwete, que fazem parte da ARSX. Foi o caso de Aritana Yawalapiti, cacique de enorme influência diplomática no Alto Xingu, morto por Covid-19 em agosto. Também de Maiari Kaiabi, professor e liderança do povo Kawaiwete, morto em 9 de setembro. Em 2020, povos do Xingu também entraram em luto com a morte de Tuim Kaiabi, pai de Tariaiup Kaiabi, integrante da direção da ARSX.

Em janeiro de 2021, um surto de covid-19 contaminou quase todas as pessoas da etnia Ikpeng, nas aldeias onde vivem as mulheres Yarang coletoras de sementes nativas. Felizmente, não houve óbito.

Deixe um comentário