Passos que constroem a história

Rede de Sementes do Xingu finaliza ciclo de formação de gestores para participação mais ativa dos coletores nas tomadas de decisões

Por Tatiane Ribeiro

O segundo ciclo de formação dos gestores da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) em habilidades de gestão acaba de se encerrar com o 10º módulo realizado entre os dias 23 e 27 de setembro de 2019, na cidade de Canarana (MT). Foram quatro anos de trabalho em que ocorreram a troca de experiências entre um modelo que considera o ser humano sob quatro tipos de organização, conhecida como quadrimembração, e as concepções diversificadas dos grupos de coletores. “Nosso objetivo era proporcionar o desenvolvimento pessoal e profissional dos gestores para gerir os grupos de forma autônoma e participativa afim de incentivar o trabalho e desenvolver a realidade social onde atua”, conta Bruna Ferreira, direto da ARSX.

Após o primeiro módulo onde foi trabalhado a biografia de cada participante e da própria rede para entender onde as pessoas e a rede se conectam, foram realizados mais nove encontros que ocorreram em dois fluxos: o desenvolvimento do gestor e o fortalecimento da própria associação. “Nesse processo foram repassadas atividades sobre como melhor se expressar, como ter uma escuta ativa e empática, realizar reuniões mais produtivas, organizar tomadas de decisões em grupos e coordenar ações ligadas à rede em suas regiões entre outras competências”, conta Regina Erismann, consultora do Instituto EcoSocial, parceiro da iniciativa.

 “Eu sou um exemplo de transformação. Sempre fui muito tímida, quase não conseguia me comunicar em reuniões. Agora eu me expresso melhor e de forma mais clara quando preciso falar em público ”, conta Eliane Righi, coletora e moradora do Projeto de Assentamento Sustentável (PDS) Bordolândia, localizado em Serra Nova Dourada (MT). “Todos os módulos tinham uma particularidade interessante que incluíam decisões, aproximação, entrosamento e desafios”, afirma Ana Lucia Silva Souza, coordenadora de projeto socioambiental da Associação Nossa Senhora de Assunção (ANSA) e técnica do trabalho de base comunitária na rede. 

Antônio Augusto Marques Martins, diretor da ARSX, conta que as atividades trouxeram melhores condições para os elos atuarem dentro da rede, principalmente em relação a melhora na coleta das sementes. “É uma alegria e também um compromisso que foi reforçado nas falas e atividades de tocar isso tudo para frente. Aprimoramos e discutimos algumas sugestões que vieram da base, que é o que faz a associação crescer”.

Mais inclusão, novos desenhos

Apresentação durante a formação do Gestores. Foto: Oreme Ikpeng

Além do espaço de aprendizagem e formação, o curso se tornou um local de reflexão de decisões que também foram encaminhadas para assembleia. A partir do sétimo módulo, representantes indígenas de cada aldeia do Território Indígena do Xingu (TIX) que compõem a rede passaram a participar mais ativamente, assim também como os Xavantes, junto com os agricultores familiares, os coletores urbanos e técnicos compartilhando suas visões de mundo, regras sociais e estilos de gestão em espaços mais destacados dentro da formação.

Alinhados às transformações da rede que está revendo seu modelo de governança, os módulos também contribuíram com novas visões para a estruturação da associação. Houve a criação do Comitê Diretivo que faz parte do organograma da rede e onde os gestores estão representados. Com três membros gestores (um indígena, um coletor urbano e um assentado) o desafio é contribuir de forma participativa nas decisões de um negócio social que tem como base um modelo de gestão horizontal, inclusivo e com potencial de aprendizagem, de desenvolvimento das pessoas e das condições socioeconômicas dos membros. “É um caminhar que tem proporcionado aprendizados para todos os envolvidos. Estamos fazendo história aqui”, afirma a consultora.

Desafios interculturais

Cerca de 30 elos compõem o grupo de gestores da rede, desde jovens entre eles indígenas das diferentes etnias (Yudja, Kawaiwete, Wauja, Ikpeng, Matipu e Xavante) como os mais antigos integrantes da ARSX como seu Acrísio Reis, 67, coletor do assentamento Manah, de Canabrava do Norte (MT) que afirma que o conhecimento melhorou ao longo dos anos. “A gente não tinha certeza na hora de tomar decisões agora estamos mais conscientes para isso”, diz.

Tari Kaiabi, Bruna Ferreira e Antônio Marques, diretores da rede, e Eliane Righi e Tawa Juruna, gestores e membros do Comitê Diretivo. Foto: Tatiane Ribeiro

Tawaiku Juruna, articulador do povo Yudja na rede dentro do TIX foi um dos indicados para compor o Comitê Diretivo juntamente com Eliane Righi e Milene Alves, elo do grupo de Nova Xavantina (MT). “Isso me traz de forma profunda uma experiência de entender mais sobre a rede e sua política. Ganhamos mais uma força como esse comitê que é muito importante porque todos ficam mais cientes que estão bem representados dentro da rede”, afirma o indígena. O comitê também é composto por um dos diretores da rede e pela coordenação executiva da mesma. 

Para Bruna isso é um amadurecimento da associação como um todo. “A partir dos testes que estão sendo realizados em várias áreas da organização as mudanças serão também consolidadas no regimento interno ampliando ainda mais o nosso pioneirismo como modelo de inspiração para outras rede de sementes em todo o Brasil”, destaca.

Há ainda outros desafios pela frente. Dannyel Sá, assessor da ARSX, pontua que é importante fortalecer ainda mais a participação dos grupos, que no total são 27 espalhados pelas bacias do Xingu-Araguaia, e que são representados pelos elos, para assim contemplar as formas de organização de cada um desses grupos de forma que eles consigam participar cada vez mais efetivamente das tomadas de decisão. 

“Tem o processo de levar a ações discutidas no gestores para a base deles e o de entender como eles se organizam para além da rede para que seja possível contemplá-los cada vez mais nesses espaços participativos”, aponta. “Só assim a troca de modelos será mais efetiva e não só baseada em uma referência que a rede leva para os grupos.”

Como os desafios da interculturalidade é uma constante no trabalho da associação que conta com cerca de 600 coletores, Sá afirma que para que todos se sintam cada vez mais ativos dentro dos processos as perspectivas para os próximos passos vão para além dos espaços de formação. “Buscamos estar pautados no reconhecimento das formas de organização específicas para que sejam verdadeiramente valorizadas em tudo ”, conclui.

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