Mesmo em luto na pandemia, com atividades canceladas e queda nas encomendas, Rede de Sementes do Xingu reafirma-se como potência rumo à restauração socioambiental

Mulheres Yarang coletoras de sementes, da aldeia Moygu, do povo indígena Ikpeng, recebe kits de prevenção à Covid-19 (Foto: Wassayu Kitsapa Ikpeng)

Com resposta rápida à pandemia de Covid-19 e adaptações de vários tipos, ARSX conseguiu coletar 19 toneladas de sementes, gerando um estoque estratégico e estabilizando a renda familiar dos coletores

Por Ludmilla Balduino

O vírus Covid-19, que se alastrou até se tornar uma pandemia oficializada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11 de março de 2020, provocou alterações no modo de vida de pessoas em todo o planeta – em especial, das pessoas que vivem nas cidades.

Na Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX), em que grande parte dos coletores vive em comunidades não-urbanas, a pandemia impactou de outras maneiras. Nesse período, com a falta de políticas públicas por parte do governo, que fere princípios básicos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, essas populações minoritárias que compõem a ARSX sobreviveram graças aos arranjos locais, aos vínculos comunitários, às parcerias e às alianças estratégicas.

Com bloqueios sanitários e redução da entrada e saída dos moradores dos territórios, sentimentos comuns ao isolamento urbano, como a solidão, não foram percebidos com tanta força entre muitos dos coletores, que permaneceram em contato social através dos convívios internos – sempre quando não havia riscos de contaminação. Ainda assim, as restrições de locomoção impostas pela pandemia afetaram a entrada e saída de bens e produtos importantes para a subsistência das comunidades, reduzindo até mesmo o acesso a itens prioritários para o enfrentamento à Covid-19, como produtos de limpeza e higiene.

Os integrantes da Rede não saíram incólumes das dificuldades impostas em 2020. Em junho, uma das coletoras anciãs, Mônica Rênhinhai’õ, do grupo Pi’õ Romnhá Ma’ubu’mrõiwa (Mulheres Coletoras de Sementes, na língua akwén, do povo Xavante), morreu depois de quase dois meses lutando contra o coronavírus em um pronto-socorro de Barra do Garças (MT).

Entre os diversos povos indígenas do alto e baixo Xingu, a morte de líderes importantes desestabilizou a organização social de todos os povos habitantes do Território Indígena do Xingu (TIX), especialmente os Wauja e Kawaiwete, que fazem parte da ARSX. Foi o caso de Aritana Yawalapiti, cacique de enorme influência diplomática no Alto Xingu, morto por Covid-19 em agosto. Também de Maiari Kaiabi, professor e liderança do povo Kawaiwete, morto em 9 de setembro. Em 2020, povos do Xingu também entraram em luto com a morte de Tuim Kaiabi, pai de Tariaiup Kaiabi, integrante da direção da ARSX.

De acordo com dados levantados pelo Instituto Socioambiental, até o dia 23 de dezembro, foram registrados 46 óbitos por coronavírus nos territórios Xavante, e 14 mortos entre os povos do TIX.

Ainda que em luto, em meio às ameaças e incertezas, com isolamento e adaptações, os grupos que compõem essa rede foram capazes de coletar 19 toneladas de 112 espécies de sementes nativas diferentes, gerando uma renda de R$ 436 mil em 2020. Entre as espécies mais colhidas, estão jatobá-da-mata, caju, pequi-do-xingu, cajazinho, urucum, tamboril, buriti, mamoninha, baru e copaíba.

Bruna Ferreira, diretora da ARSX, diz que em 2020, foram construídos caminhos estratégicos para que as atividades geradoras de renda às comunidades não parassem. Esses caminhos estratégicos levaram à organização da Rede para agir com respostas rápidas em relação à prevenção do vírus entre os coletores; ao estabelecimento de outros canais de comunicação e apoio entre pessoas; e para que houvesse uma estabilidade mínima de produção e renda, já que a demanda externa por restauração diminuiu com a pandemia.

Em 2021, a Rede completa 14 anos de atuação nas regiões das bacias dos rios Xingu, Araguaia e Teles Pires, com 568 coletores distribuídos por 24 grupos de coletas localizados em 21 municípios, 16 assentamentos rurais de agricultores familiares, e 26 aldeias de três terras indígenas. Junto com parceiros, ao longo desses 14 anos, a ARSX já espalhou pelo solo 262 toneladas de sementes de mais de 220 espécies de plantas nativas, movimentando ao todo R$ 4,4 milhões nas comunidades.

Enfrentando situações de desafios ampliados pela pandemia, e apoiando-se no fortalecimento dos trabalhos em cooperação, esses caminhos estratégicos seguem sendo construídos pela ARSX, na esperança gerada pela missão de colaborar com a recuperação da vegetação nativa e diversa nos territórios degradados do Cerrado e da Amazônia. Em julho, esse trabalho – inclusive o de resposta rápida no enfrentamento à pandemia – foi reconhecido e premiado no Ashden Awards, prêmio internacional para soluções climáticas.

O que mudou na Rede de Sementes do Xingu com a pandemia?

Logo no início da pandemia, em março, a Rede de Sementes do Xingu produziu conteúdo em áudio, vídeo e por escrito, reproduzindo as recomendações da OMS e adaptando-as para as atividades de coleta, beneficiamento e entrega de sementes, e também para os momentos dos pagamentos. Ainda foram enviados kits personalizados de proteção e segurança, com álcool em gel, sabonetes, máscaras e outros produtos, para ajudar os coletores dos grupos a manterem-se isolados.

Desde então, as atividades técnicas, administrativas e de organização comunitária da ARSX são realizadas, na medida do possível, via teletrabalho. As Casas de Sementes, em especial as urbanas, agendaram datas específicas para o recebimento das sementes coletadas, seguindo todas as medidas de prevenção contra o coronavírus. Nos assentamentos de agricultura familiar e nas aldeias onde há coletores indígenas, as sementes foram estocadas nas Casas de Sementes regionais ou nas casas dos elos dos grupos coletores. Quando chegavam a um limite do armazenamento, os elos combinavam uma data e um local para a retirada e o transporte para as Casas de Sementes maiores, localizadas em Nova Xavantina, Canarana e Porto Alegre do Norte. 

Nesses momentos de retirada de estoque e recebimento nas Casas de Sementes, todas as medidas sanitárias foram tomadas, como a presença do menor número de pessoas possível, o distanciamento social, o uso de máscaras e de álcool em gel. Até os sacos de sementes passaram por procedimentos de higienização.

Como foi o ano de 2020 na vida dos coletores

A Rede de Sementes do Xingu possui três perfis majoritários de coletores – cada um deles é formado por 24 grupos menores, resultando nessa teia repleta de especificidades: os povos indígenas, os agricultores familiares dos assentamentos, e os coletores que vivem nas cidades.

Oreme Ikpeng, facilitador da ARSX e gestor do grupo de coletoras Yarang, da etnia Ikpeng, diz que o maior desafio foi as barreiras sanitárias nas aldeias, que dificultaram a saída das sementes. “Mesmo assim, as coletoras Yarang trabalharam, colhendo as sementes de fácil acesso e com cuidado redobrado para evitar acidentes ofídicos”, diz.

O contato de Oreme com grupos indígenas de outras regiões era realizado via WhatsApp e rádio amador: “a gente conversava sobre as ações da Rede, o que estavam fazendo, e decidíamos o planejamento das datas e locais de entrega das sementes. Foi um desafio, porque eu queria estar nas aldeias, nos locais, conversando com os coletores e elos, mas foi possível trabalhar com a comunicação à distância”, diz o facilitador.

Além da morte de Mônica Rênhinhai’õ, do grupo de coletoras Xavante, outros casos de Covid-19 foram confirmados em várias aldeias onde há presença de coletores – inclusive nas aldeias da etnia Matipu. Mesmo nesse cenário, em que a taxa de letalidade por Covid-19 no Xingu e nos territórios Xavante chegou a duplicar em relação aos não-indígenas, ainda foi possível realizar a coleta de sementes em segurança em algumas aldeias. “Em outras aldeias, teve coletor que precisou acampar no meio do mato para fazer quarentena. Mas o trabalho com as sementes foi a esperança que nos manteve motivados a continuar trabalhando e enfrentando a pandemia”, conta Oreme.

Eliane Righi, coletora e elo do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, em Serra Nova Dourada (MT), conta como foi o ano de 2020 para as 13 famílias de coletores que vivem nesse assentamento na zona rural:

“Em termos de isolamento, nós não sentimos a pandemia tanto quanto o povo da cidade. Nosso isolamento fez a gente dar mais valor ainda a nós mesmos, que moramos no sítio. A gente não se sentiu preso, e continuamos nossas atividades normais. O impacto maior foi na economia, mas aqui produzimos leite e alimentos para nossa subsistência. Por causa da pandemia, ficamos um bom tempo parados, e por isso, o grupo vendeu um pouco menos de sementes esse ano.”

Os primeiros mutirões de semeadura direta de 2020, usando as muvucas (misturas “sistemáticas” de sementes) da Associação Rede de Sementes do Xingu, foram realizados pela Comissão Pastoral da Terra (regional Araguaia) nas áreas destinadas à restauração ecológica do assentamento, em novembro e dezembro. Eliane conta que o plantio em duas áreas de Bordolândia gerou interesse na vizinhança: “muita gente quer fazer muvuca depois dos mutirões que a gente fez, com todo mundo ciente dos cuidados na prevenção ao coronavírus”, diz.

Dentre os macrogrupos da Rede, os coletores urbanos foram os que mais tiveram de utilizar equipamentos e medidas de proteção contra a Covid-19 em momentos de coleta. Milene Alves, do comitê diretivo da Rede, relata: “desde que entrei em 2013, a gente nunca viveu um ano desse jeito, e várias coisas mudaram, desde a coleta até a entrega final das sementes. Como fizemos lockdown em março, a coleta atrasou. E quando saímos para as coletas, sempre usávamos máscaras.”

No balanço de fim de ano, o grupo de coletores urbanos de Nova Xavantina (MT) foi o que mais coletou sementes em 2020: foram 3,9 toneladas. Seguindo a lista dos 10 grupos que mais coletaram, estão o Projeto de Assentamento (PA) Macife (3,4 toneladas), o PDS Bordolândia (2,3 ton), o PA Manah (1,3 ton), o Kuyuwi (877 kg), o PA Jaraguá (745 kg), o PA Dom Pedro (631 kg), São José do Xingu (573 kg), o PA Caeté (544 kg) e as Yarang (399 kg).

Para Dannyel Sá, facilitador da ARSX, “o ano de 2020 reforçou como a flexibilidade organizacional da Associação Rede de Sementes do Xingu e a possibilidade de moldar um arranjo horizontal pautado nas relações profundas que os coletores mantém entre si, as plantas, os animais, as águas, os espíritos e os fenômenos meteorológicos, são imprescindíveis para a reversão de uma tragédia climática que se anuncia e para a criação de outros futuros possíveis.”

Demandas externas para restauração ecológica caem 57%

Outro impacto da pandemia na Rede de Sementes em 2020 deu-se com a queda de 57% do volume de encomendas externas de sementes nativas para restauração ecológica. Em 2019, a ARSX recebeu 14 encomendas que geraram uma demanda de produção de 33 toneladas de sementes. O ano de 2020 terminou com 40 encomendas menores que, somadas, demandaram a produção de apenas 14 toneladas.

Já prevendo essa queda, a própria Associação Rede de Sementes do Xingu, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), fez logo no início de 2020 uma grande encomenda de 21,5 toneladas de sementes, que cobriu toda a produção anual, e ainda possibilitou a formação de um estoque de sementes estratégico, com cinco toneladas, para 2021.

O pagamento dessa encomenda foi antecipado, e o valor do Fundo Rotativo (um fundo de microcrédito destinado aos coletores) foi ampliado para que mais grupos pudessem acessar. Mesmo segurando as pontas, em 2020, o volume de sementes coletadas pela ARSX atingiu 92% da meta deste ano, e chega a ser 32% inferior ao volume produzido em 2019.

Das 19 toneladas de sementes produzidas este ano, 13 já foram vendidas e encaminhadas para as áreas estratégicas de restauração ecológica, como nascentes de rios, nos biomas Cerrado e Amazônia.

“Esses números comprovam que existe um compromisso dos coletores em atender as demandas dos compradores, o que, num contexto geral, também mostra o compromisso de toda a Rede de Sementes do Xingu em seguir com estabilidade na produção de sementes nativas para restauração ecológica”, diz Claudia Araújo, gestora de produção e qualidade da ARSX.

Pandemia cancelou atividades presenciais da Rede

Apesar do bom desempenho na produção de sementes, a ARSX foi impactada com o cancelamento de todas as atividades presenciais, importantíssimas para o bom funcionamento dessa intrincada rede de relacionamentos socioambientais.

“O trabalho da Rede não é só na produção de sementes. As formações e os encontros também são a vida da Rede de Sementes do Xingu”, diz Claudia Araújo. Em eventos como o Curso de Gestores, a Assembleia Geral e o Encontro Geral, por exemplo, são realizadas tomadas de decisões em coletivo, e essas decisões são baseadas no planejamento estratégico da Rede e também no contexto em que cada um dos participantes está inserido.

Também foram adiadas todas as atividades em campo que envolveriam aglomerações de pessoas de diferentes lugares, como os mutirões de plantio e as expedições. “No entanto, a Rede não se desestabilizou por conta disso: a gente conseguiu fazer um acompanhamento sistemático, um atendimento mais personalizado, nos grupos de WhatsApp onde estão reunidos todos os coletores”, completa Claudia.

Os encontros não puderam ser realizados via internet, porque algumas atividades realizadas nesses eventos exigem a presença física de pessoas, e também porque a maioria dos integrantes da Rede de Sementes do Xingu vive em áreas rurais e terras indígenas, onde o acesso à comunicação via internet é limitado.

Entre os coletores, há um lamento geral sobre a falta de atividades presenciais, mas também o reforço de que os laços que compõem essa Rede de restauração socioambiental continuam firmes e fortes.

Mesmo com desafios, perspectiva para 2021 vem carregada de esperança

“Desafio” é uma palavra comumente associada às experiências da Rede de Sementes do Xingu, criada em 2007 a partir de uma convocação dos povos indígenas para que fosse realizada uma força-tarefa com objetivo de proteger as nascentes do Xingu contra o desmatamento. “A Rede sempre se supera nas questões que são postas. Desafio sempre houve, e eles só são superados porque aqui existe a conversa, o compartilhamento dos problemas e dos planejamentos em toda a Rede”, diz Claudia Araujo.

Em 2020, com a pandemia, foi necessário alinhar as conversas entre os coletores, o conselho fiscal e o conselho curador, para chegar em pontos em comum e fazer as tomadas de decisão coletivas sobre o funcionamento da ARSX dali em diante.

“A pandemia nos levou a criar um novo jeito de fazer as coisas. A gente teve que aprender a fazer esse novo. Foi uma boa experiência para os coletores e para a equipe, que nos levou à superação desses desafios”, comenta Claudia.

Falando em superação, Eliane Righi acredita que em 2021, o grupo de Bordolândia vai se fortalecer ainda mais com a chegada de novos coletores, de outras áreas do assentamento, interessados nas práticas de coleta, beneficiamento e restauração da Rede de Sementes do Xingu.

Oreme Ikpeng diz que, com a chegada da vacina, os coletores indígenas conseguirão ampliar ainda mais o potencial de coleta de sementes nativas nos três territórios indígenas que fazem parte da ARSX. “Em 2021 vamos melhorar o que deu errado, continuar o que deu certo, mas acredito que o ano que vem será um ano de fazer diferente, de recomeçar diferente”, diz.

Recomeço também define a perspectiva de Milene Alves para 2021: “o sentimento aqui em Nova Xavantina é de dever cumprido. Mesmo nessa tempestade, Deus nos abençoou. Foi um ano que tudo poderia dar errado: poderia não ter venda de sementes, os coletores poderiam sentir falta dessa renda que é tão importante para eles, e na verdade não houve essa tragédia. A gente foi bem feliz, porque tivemos encomenda e conseguimos entregar as sementes. Para 2021, o sentimento é de esperança. O ano que vem vai ser um ano de recomeço, onde vamos valorizar cada vez mais o nosso trabalho.”

 Antônio Augusto Marques Martins, diretor da ARSX, diz que um dos maiores desafios para 2021 será também uma ótima oportunidade para melhorar ainda mais as condições de vida dos coletores e também de todo o planeta: “Nosso trabalho segue no sentido de acolher novos grupos de coletores, melhorar a qualidade das sementes, aumentar a produção, fortalecer a logística de coleta e distribuição… São muitos desafios, mas a oportunidade de plantar sementes florestais, nativas, para criar floresta e melhorar as condições de vida nas nossas comunidades diversas e em todo o planeta, é maior do que os desafios e nos torna ainda mais fortes e com mais condições de dar os próximos passos.”

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