Nos dias 16 e 17 de junho, Nova Xavantina foi palco de um evento memorável: o I Seminário da Rede de Sementes do Xingu (ARSX), que reuniu uma “muvuca de gente” para discutir os desafios e as perspectivas da restauração florestal no Mato Grosso e no Brasil.
Ao todo, 145 pessoas estiveram presentes, incluindo indígenas, agricultores familiares, fazendeiros, técnicos, professores, representantes de organizações do terceiro setor e agentes políticos de pelo menos 18 municípios mato grossenses, além da Terra Indígena do Xingu, da Terra Indígena Marãiwatsédé e de estados como São Paulo, Goiás, Rondônia e Distrito Federal.
Ao longo de dois dias, os participantes puderam não só assimilar a complexidade e a grandeza da cadeia da restauração florestal com muvuca de sementes, como também vislumbrar a diversidade de agentes e de possibilidades envolvidos nesse processo.
Uma programação da semente à floresta
A programação do I Seminário da ARSX incluiu momentos teóricos, práticos e culturais, começando pela abertura do evento com a presença da Diretoria da ARSX e de João Ailton Barbosa – Secretário de Administração, Meio Ambiente e Infraestrutura – e Áurio Pedreira, secretário da Agricultura Familiar de Nova Xavantina, que celebrou a transferência da sede da ARSX para o município e sinalizou seu apoio às ações do grupo.

Fotos: Nativa Filmes
A seguir, os participantes tiveram a chance de escutar mais sobre a história da RSX, suas realizações e metas futuras, em uma exposição feita pela diretora executiva da associação, Bruna Ferreira. A manhã contou, ainda, com uma plenária em formato de mesa redonda, reunindo sete representantes de diferentes etapas da cadeia de restauração florestal.

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As apresentações da mesa contemplaram aspectos estratégicos do restauro, incluindo a coleta de sementes em territórios urbanos e indígenas; a análise da qualidade das sementes em laboratório; as diferentes etapas da restauração; o case de sucesso da Fazenda Schneider; os custos financeiros da restauração e o trabalho de combate a incêndios no Parque Indígena do Xingu.

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O debate sobre essas temáticas pode ser aprofundado durante a tarde, dedicada a Grupos de Trabalho. Em roda, os participantes discutiram pautas como armazenamento de sementes; espaços de formação para equipes coletoras; plantação de matrizes próximas às casas de quem coleta; preço, demanda e qualidade das sementes; fortalecimento de centros de pesquisa, como a UNEMAT; criação de parcerias, sobretudo políticas; melhores épocas e técnicas de plantio e manejo; cuidados com o fogo e com o capim, além de questões econômicas, políticas e socioculturais do restauro.

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Por fim, o segundo e último dia do evento permitiu que os participantes testemunhassem a realidade da restauração ao visitar duas áreas: uma área verde na sede do município de Nova Xavantina, que ainda receberá a muvuca de sementes, e uma área de meio hectare no Projeto de Assentamento (PA) Pé da Serra, onde Mariozan e Angela Maria, coletores da RSX, semearam 78kg de sementes em dezembro de 2021.

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“Abordamos aspectos da cadeia da restauração florestal e os benefícios da muvuca para as propriedades, para a qualidade da água e para a captura de carbono. Como nem todos os participantes conheciam nosso trabalho, esta foi uma ótima oportunidade para avançar na agenda da restauração ambiental no Mato Grosso e no Brasil”, celebra João Carlos Pereira, técnico da RSX.

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Uma homenagem a Heber Queiroz
A restauração florestal feita na propriedade de Mariozan, no PA Pé da Serra, é uma homenagem ao ex-coordenador regional do Instituto Socioambiental (ISA), Heber Queiroz, falecido em 2021, em razão da pandemia da Covid 19. Adubado pela dedicação e legado de Heber, ainda que simbolicamente, essa área de muvuca tem se tornado um dos melhores exemplos da técnica de semeadura direta na região.
“Logo no primeiro monitoramento, percebemos o retorno de um capim nativo que tem contribuído na recuperação do córrego da propriedade. Bastou retirar a camada de braquiária para conseguirmos resgatar essa espécie. Mariozan é muito cuidadoso e isso contribui para o processo”, explica Aline Ferragutti, técnica do ISA responsável pela implantação do projeto.
A visita também inspirou outros agentes que têm feito restauração florestal em suas propriedades, como é o caso da coletora e elo Eliane Righi. “Nossos plantios têm o mesmo tempo e estão parecidos. Tem caju e mamoninha florindo, lobeira produzindo e feijão andu sendo colhido. Adoro saber que em breve vamos coletar sementes mais perto de casa”, comenta.

A cadeia da restauração florestal por muvuca:
geração de renda que transforma vidas e cuida do meio ambiente
A muvuca de sementes é uma técnica antiga de restauração, reconhecida por suas vantagens a nível ecológico, econômico e social se comparada com outras técnicas de restauro.
Ecologicamente, o plantio por muvuca apresenta maior potencial de germinação e menor taxa de mortalidade das plantas, que crescem já adaptadas ao solo e, com isso, tornam-se mais resilientes. A nível econômico, o plantio também é otimizado, uma vez que os custos de transporte, de implantação e de manejo são mais baixos.
Mas é em termos sociais que a muvuca revela sua maior preciosidade: por trás dela, há toda uma cadeia de comunidades e territórios que se beneficiam com a coleta de sementes, uma iniciativa que gera renda, promove saúde e sensibiliza comunidades.
“Coletar semente é um serviço que me distrai e me ensina outros jeitos de cuidar da Natureza. Eu não tinha isso de preservar uma área e hoje eu não quero cortar uma árvore. Quando eu vou pro mato coletar, demoro a voltar pra casa de tanto que eu gosto”, conta Dalvina da Conceição, coletora do PA Manah, em Canabrava.

Dalvina coleta sementes na muvuca que encerrou o evento. Fotos: Nativa Filmes
Depoimentos como o de Dalvina demonstram a força de transformação que a muvuca semeia. Isso acontece porque a semente traz conexão tanto para quem planta quanto para quem coleta. Quem coleta sementes caminha atento às árvores, às flores e aos animais. E isso gera saúde, tanto física quanto emocional.
A coleta de sementes é um exercício de Educação Ambiental, capaz de resgatar culturas de proteção e cuidado dos territórios, restabelecendo práticas como o canto e a observação. “A semente não veio só pra trazer dinheiro. Ela traz histórias e resgata conhecimentos esquecidos. Quando coletores e coletoras se juntam, eles se organizam, se pintam e preparam música”, conta Tariaiup Kayabi, liderança indígena da Aldeia Samaúma e membro da diretoria da ARSX.
Redes em rede e mãos em ação
O I Seminário da Rede de Sementes do Xingu deixou evidente: a RSX é uma muvuca de gente trabalhando com uma muvuca de sementes! Em tons de celebração, o encontro foi encerrado com um convite aos participantes para misturarem mais de 70 tipos de sementes depositados sobre uma lona azul no centro do Salão da Eubiose, espaço que sediou o evento.
“Foi emocionante. A troca de experiências, a interação entre pessoas de etnias e vivências diferentes e a resistência de ir contra um sistema de monoculturas para preservar o meio ambiente ensina muito a nós todos”, declara Renata Del Carratore, professora da UNEMAT, comovida com a mistura das sementes.
Uma das fortalezas das sementes é justamente a força de sensibilização que elas carregam. Difícil não se emocionar ao manusear uma floresta em potencial, armazenada em sementes de diferentes cores, tamanhos e formas.

Foto: Nativa Filmes
“O que é uma muvuca, senão uma muvuca de gente? Tem semente alta, magra, gordinha. E todas com um objetivo: restaurar a floresta. Nós também somos muvuca lutando para recuperar nossas florestas e nascentes. Somos indígenas, agricultores familiares, proprietários de terra e técnicos dedicados a isso”, diz Milene Alves, coletora de sementes e técnica do Redário.
Outra beleza do encontro foi constatar que a RSX não está só. Como ela, outras organizações espalhadas pelo Brasil promovem a restauração florestal por muvuca de sementes. Bruno do Mato, membro da Rede de Sementes Portal da Amazônia, felicita a possibilidade de aprendizado e aproximação.
“Estamos unidos à RSX pelo Redário e, embora nossa atuação seja em territórios diferentes, a RSX é um exemplo e uma inspiração. A RSX está um passo a frente de onde estamos, então ganhamos muito com experiências como essa”, conclui.

Foto: Nativa Filmes
